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Contaminação Direta: Como a Covid-19 fez o gibi dos EUA entrar em colapso

Diga aí: Qual é o gibi mais vendido nos Estados Unidos?

Batman? X-Men? Walking Dead? Deadpool? Star Wars?

Pode ser um desses, pode ser outro. A resposta certa ninguém sabe.

Sim, você já viu listas de “mais vendidos” e podia jurar que todo mês sai um ranking em que a DC está na frente da Marvel, ou a Marvel está na frente da DC ou apareceu um Walking Dead e destronou as grandonas. As listas trazem até números do quanto vendeu, não trazem? De vez em quando tem até recordes de vendas, não tem?

A realidade é que nenhum destes números e recordes diz quantos quadrinhos saem das editoras e chegam nas mãos dos leitores. Isso porque o mercado de revistas em quadrinhos dos EUA – e estou falando especificamente das revistas, as fininhas e baratas, de suas 20 a 40 páginas, os comic books – tem uma particularidade: o modelo direct market, ou “mercado direto”. Que não é exatamente “direto”, mas eles chamam assim. E o mercado direto se baseia na seguinte fórmula: O Encalhe É do Lojista. E a existência do mercado direto se baseia numa coisa que vamos chamar de A Dívida. Explico mais à frente.

Esse modelo de negócios do gibi americano começou a funcionar há quase cinquenta anos, virou praticamente opção única há uns trinta e desde então tem gente dizendo que está em colapso. O colapso aconteceu mesma em março de 2020. A quarentena em função da Covid-19 fez a única distribuidora do mercado direto parar de distribuir e, mesmo com algumas lojas de gibis abertas, as editoras ficarem sem ter como levar gibi novo até os leitores.

Por que não usaram outra distribuidora? Tentaram, mas gerou atritos. Por que não lançaram digital? O digital nunca pegou, em parte, por causa do mercado direto (veja abaixo). Por que não botaram nas livrarias? Livraria não vende revista; vende HQ em formato de livro.

Qual a alternativa? Mudar todo o mercado. Se esse modelo “direto” não acabar de vez, pelo menos vai mudar para que essa situação não aconteça de novo.

E no Brasil? O modelo do mercado direto nunca virou possibilidade e a consignação ainda reina. Nossos problemas são outros. Mas o que acontece lá afeta o que acontece aqui.


Em 1935, quadrinho era coisa de jornal. Alguém teve a ideia de juntar as tiras de jornal, fazer uma revista, chamar de comic book e cobrar 10 cents. Vendeu que nem água. Editoras começaram a fazer mais dessas revistinhas, inclusive com material inédito. Vendeu ainda mais. Organizou-se a distribuição destas revistinhas para todo o país. Elas eram vendidas em bancas, na mercearia do bairro, nas farmácias, nas lojas de brinquedo e de bala.

O modelo era o da consignação: a editora entregava suas revistas à distribuidora; a distribuidora deixava 100 exemplares na banca; a banca vendia 70, pagava um percentual destes 70 para a distribuidora e devolvia os 30 encalhados; a distribuidora então pagava um percentual do que recebeu à editora. Para onde iam os 30 encalhados? Geralmente os gibis estavam tão detonados de andar pra lá e pra cá que era melhor transformar o papel em polpa. Também era comum as bancas arrancarem as capas na hora de devolver (ou só devolver as capas arrancadas, para provar que não haviam vendido, e jogar o miolo fora). Este modelo durou mais de cinquenta anos.


Os gibis vendiam aos milhões nos anos 1940. Nos anos 50 foram perseguidos e o mercado quase veio abaixo. Houve uma retomada nos anos 60. Nos 70, eles começaram a virar produto de nicho. Os nerds de gibi que a gente conhece hoje surgem nessa época, com as primeiras convenções, os primeiros fanzines e as primeiras lojas só de gibi, as comic shops.

A Marvel Comics fomentou o universo interligado e as histórias com sequência de uma edição a outra, o que tornava o leitor mais fiel. Mas distribuição era um mega problema. Se você morava numa cidade pequena, a mercearia recebia Homem-Aranha 83 e depois a 85, Quarteto Fantástico só aparecia de vez em quando e, se estreava a nova série dos X-Men, você só ia saber lá pelo número 4. Como comprar números atrasados? Só usados. E nem pense em coletâneas, em republicações, muito menos em internet. Não existia nada disso.


Por volta de 1973, um professor do Brooklyn chamado Phil Seuling – também organizador de feiras e convenções de quadrinhos – deu a solução. Ele foi às grandes editoras e propôs: quem sabe vocês cortam as distribuidoras tradicionais do negócio e vendem seus gibis direto pras comic shops? Foi o que ele chamou de direct market. O próprio Seuling ficava responsável por intermediar editoras e as lojas especializadas em quadrinhos com sua Sea Gate Distributors. Não era um sistema 100% “direto”, pois tinha um intermediário. Mas ele chamou de “direto” e assim ficou.

A cereja do bolo: O Encalhe É do Lojista. Se a editora mandou 100 exemplares pra comic shop, a loja paga por estes 100 exemplares. Se vender só 70, os 30 que não venderam… continuam na loja.

Azar da loja? Não necessariamente. Se colecionadores quisessem números atrasados, era só ir à comic shop. Criou-se o mercado das edições atrasadas, ou back issues, com preços que caíam ou subiam de acordo com a raridade ou importância de cada edição. Era negócio pra loja ter um bom estoque de edições passadas.


As editoras toparam o mercado direto, mas não abandonaram os pontos de venda tradicionais das bancas, mercearias e farmácias. Em meados dos anos 1970, estima-se que o mercado direto respondia por 25% do faturamento das editoras. O número de comic shops nos EUA cresceu de 200 ou 300 em 1974 para 1500 em 1980. Outras distribuidoras começaram a trabalhar com esse sistema.

As grandes editoras começaram a fazer especiais ou séries que só saíam pelo mercado direto. Antes, minisséries eram praticamente uma impossibilidade, pois o jornaleiro não queria vender algo que ia acabar, ainda mais quando não tinha certeza se ia receber as 3, as 4, as 6 ou as 12 edições. Com o mercado direto, surgiram minisséries como Guerras Secretas e Cavaleiro das Trevas.

Pequenas editoras e autores independentes, que não tinham cacife para entrar no velho esquema bancas-mercearias-farmácias, também aproveitaram o novo esquema. Cerebus, Elfquest, Tartarugas Ninjas, Bone e outros só vingaram por causa do mercado direto. Em dez anos do modelo, o jogo virou: o mercado direto virou 75% do faturamento das editoras de quadrinho.

As vantagens do mercado direto eram várias. Os colecionadores tinham segurança de que sua série ia chegar todo mês e, se quisessem, podiam comprar edições antigas. Como havia menos intermediários, as comic shops conseguiam cada revista com desconto maior da editora e tinham maior margem de lucro do que bancas, mercearias e farmácias. O melhor de tudo: com clientes fidelizados, podia-se prever a demanda.

A DC anunciava, digamos, a série da Tropa dos Lanternas Verdes. Cada comic shop perguntava a seus clientes se eles iam comprar. As comic shops informavam à DC que tinham 50 mil compradores de Tropa dos Lanternas Verdes n. 1. A DC então imprimia 60 mil Tropa dos Lanternas Verdes n. 1 (com margem de folga para captar mais leitores). Se a demanda era maior, podia-se imprimir mais. Se a demanda era menor, podia-se imprimir menos.

Claro que nunca funcionou com essa perfeição, mas era uma meta possível. No mercado direto, a editora poderia prever tiragem. É por isso que hoje se tem as listas de lançamentos de Marvel, DC, Image, Dark Horse e outras com três meses de antecedência: para dar tempo de se ajustar à demanda.

Mas a grande vantagem continuava sendo aquela: O Encalhe é do Lojista.


As bancas começaram a chiar. Não só por causa do mercado direto: é que gibis têm preço unitário muito baixo e não têm tanta saída para ocupar espaço numa banca que vende centenas de outras revistas para público geral e com preço de capa mais alto. As editoras de quadrinhos começaram a deixar só seus pesos pesados – Superman, Batman, Homem-Aranha, X-Men – nas bancas e concentrar a maior parte de sua linha nas comic shops.

A relação com as bancas foi piorando até que, em meados dos anos 1990, as editoras de HQ resolveram ficar praticamente só com as comic shops. O mercado direto virou opção única. O que era nicho virou 100% do mercado. Se você queria comprar revistas em quadrinhos, só ia encontrar em comic shop. Com raras exceções, não se viu mais gibis em bancas, mercearias e farmácias dos EUA.

Foi quando se criou A Dívida com as comic shops. Se não houvesse mercado direto, o formato das revistas em quadrinhos teria sido extinto nesta época. Portanto, até hoje todas editoras prezam e a toda oportunidade elogiam a coragem dos donos de comic shops. Eles seguraram a bronca, eles não deixaram o mercado ter que virar outra coisa. Esta é A Dívida.

A virada também criou a grande desvantagem do mercado direto. Se os gibis só eram vendidos em lojas frequentadas por fãs fiéis, como os gibis iam chegar a novos leitores ou ao leitor casual? Como o contingente de leitores ia se renovar? Também são dessa época clichês como o Cara dos Quadrinhos dos Simpsons: o atendente que trata os clientes com desprezo e cria um ambiente que afugenta quem não é iniciado. Sem falar no machismo. O número de leitoras caiu e elas não eram bem-vindas em muitas lojas.


Aquele mercado de edições atrasadas que se formou lá nos anos 1970 acabou virando um mercado especulativo. Se edições podiam valer dez ou cem vezes o preço de capa, elas eram quase títulos de ações. Lojas e leitores começaram a comprar revistas como investimento. As editoras perceberam e começaram a botar “número 1!” ou “a estreia do Homem-Alcachofra!” berrando na capa, sinalizando que aquela edição podia valer bem mais em breve. A sequência de tiragens milionárias – dois milhões de Spider-Man n. 1, cinco milhões de X-Force n. 1, oito milhões de X-Men n. 1 – aconteceu por causa da especulação. Lojas e leitores pediram caixas de exemplares para guardar e vender depois, com lucro.

Mas, tal como no mercado acionário, se todo mundo se acha esperto, ninguém é esperto. Os primeiros anos da Image Comics e eventos como a “Morte de Superman” continuaram apostando nos especuladores e os especuladores continuaram a comprar caixas de gibis para deixar no depósito. Quando essas caixas não renderam nada, os especuladores foram à falência. De dez mil comic shops no país, sobraram menos de cinco mil.


A administração da Marvel Comics é figura importante na quebra das comic shops nos anos 1990. A editora atraiu mega-investidores que queriam tirar somas fabulosas do negócio. Entre outras medidas, o preço de capa pulou gradativamente. Apesar das melhorias na qualidade gráfica, pela inflação norte-americana o gibi de 10 cents de 1935 deveria custar US$ 1,10 em 1994. A Marvel pulou de 75 cents em 1987 para US$ 2 em 1994. As outras editoras seguiram a deixa e também subiram os preços.

A Marvel ainda comprou uma das principais distribuidoras do mercado direto, a Heroes World, para ter distribuição independente e exclusiva, o que complicou a livre concorrência. Em resposta, a maioria das outras editoras assinou contrato de exclusividade com a maior distribuidora, a Diamond Comics. A Marvel entrou em processo de falência e a Heroes World fechou. No processo de recuperação, a Marvel acabou tendo que assinar também a exclusividade com a Diamond. A empresa de Maryland virou o único canal por onde passa todo o mercado direto.


Em novembro de 2019, a DC Comics anunciou Batman n. 88 entre os lançamentos de fevereiro de 2020. A revista estava prevista para 5 de fevereiro – três meses à frente – e os lojistas tiveram até duas semanas antes para fechar pedidos. Ou seja, foram dois meses e meio para cada lojista contar quantos compradores teria na sua loja, botar uma margem de folga e fazer seu pedido.

O preço de capa de Batman n. 88 é US$ 3,99 e o lojista paga metade deste valor – ou menos, dependendo do volume de pedidos com a editora. A DC somou todos os pedidos e decidiu a tiragem, também com margem de folga. Batman n. 88 saiu da gráfica direto para a Diamond Comics, que entregou a cada comic shop com seus caminhões ou de distribuidoras associadas entre os dias 3 e 5 de fevereiro, dependendo da cidade. As lojas só tiveram autorização a abrir as caixas no dia 5, quarta-feira. A quarta-feira é o dia oficial de lançamentos no país.

Muitas lojas mantêm o sistema da pull list, tipo uma “reserva fixa”. O freguês diz que sempre vai querer todas edições de Batman, Homem-Aranha e Saga, então a loja já tem vendas certas de Batman, Homem-Aranha e Saga. Entrar na pull list do maior número de leitores é a meta de toda série.


Batman n. 88 apareceu na lista de “mais vendidos” de fevereiro de 2020 em oitavo lugar, com estimativa de vendas de 56.992 exemplares da capa principal e 17.431 da capa alternativa. Lembre-se que quem comprou estas mais de 70 mil Batman n. 88 foram as comic shops e quem as vendeu às comic shops foi a distribuidora Diamond Comics, que depois fará seu acerto com a DC Comics.

Muito importante: estes números são estimativas. A Diamond faz um ranking mensal de mais vendidas, mas não divulga números exatos, só um indicador relativo. O indicador é relativo, no caso, à série Batman, que é escolhida como referência porque sai todo mês, quase sem falha, desde 1940. O index number que a Diamond coloca no seu ranking é o percentual de exemplares que cada edição vendeu em relação à edição de Batman daquele mês. Assim, em fevereiro, Wolverine n. 1, com index “334.38”, vendeu 3,3438 vezes o número de exemplares de Batman n. 88 (index “100.00”). Family Tree n. 3 (série da Image criada por Jeff Lemire e Phil Hester)), quintocentésima colocada no ranking, com index “1.36”, vendeu 1,36% de Batman n. 88. O sistema de indexação relativa foi criado nos anos 1980 para os lojistas terem noção do quanto os colegas pediam de cada revista sem divulgar números exatos.

Sites como ICV2 e Comichron fazem a estimativa do número de vendas de Batman n. 88 a partir de levantamento em comic shops e outras fontes, aí calculam as estimativas dos outros títulos a partir de seus index. Ou seja, estima-se que Wolverine n. 1 vendeu 190.568 exemplares e Family Tree n. 3 vendeu 777 exemplares.

A quantos leitores chegaram essas 70 mil Batman n. 88? Ninguém sabe. Quantas ficam na prateleira de edições passadas das comic shops? Quantas ficam no depósito para serem vendidas quando (ou se) valorizarem? Quantas vão parar na caixinha de “queima de estoque: qualquer gibi a 50¢”? Ninguém sabe. Quantas voltam para a editora? Nenhuma. O Encalhe É do Lojista.


O sistema do mercado direto também permite uns salameleques como as capas alternativas ou “variantes”. É prática comum das editoras lançar a mesma revista com duas ou mais capas, tendo uma como oficial e as demais com tiragem menor. Tem uma sacada comercial aí que infla os números de “vendas”: a comic shop só pode comprar uma capa alternativa se comprar X capas oficiais. Esse X pode ser 25, 50, até 100 exemplares. Obviamente, a capa alternativa vira raridade. E o lojista pode cobrar o que quiser do cliente que quiser essa raridade. Mas lembre-se que, para ter esta “variante” na sua loja, o lojista teve que pagar por outros 25, 50 ou 100 exemplares do mesmo gibi. Entendeu como isto infla os números de “vendas”?

E as edições “esgotadas”? Se você tem um sistema que ajuda a prever a demanda, como é que a edição esgota? Oras, é só a editora imprimir menos que a demanda e aproveitar a chance de lançar notícias entre os fãs dizendo que a revista é muito procurada, o que pode gerar mais interesse. E mais capas alternativas, da segunda, da terceira, da quarta tiragem…

Não se esqueça que, no meio disso tudo, O Encalhe É do Lojista.


Desde os anos 1980, cresceu em paralelo ao mercado direto o quadrinho em formato livro: graphic novels originais e as coletâneas de minisséries ou trechos de séries. Este material era e é vendido nas comic shops, mas a novidade era que ele também chegava às livrarias. Ou seja, ficava na frente de um público que não era o fã fiel. Cavaleiro das Trevas, Watchmen e Sandman foram sucessos de livraria nos anos 1980 e 1990. Na década de 1990, os mangás explodiram nos EUA – não nas comic shops, mas principalmente via livrarias. Meninas podem entrar em livrarias sem medo de misoginia.

Na virada dos anos 2000, Marvel e DC passaram a (re)lançar tudo que podiam em livro. Virou parte do planejamento editorial pensar uma história para seis edições avulsas da série mensal, que depois se reúnem em coletânea-livro, ou trade paperback, ou TPB. Como este material não era vendido só no mercado direto e como as livrarias (físicas e online) estavam abrindo seções de quadrinhos, o gibi-livro virou fonte de renda cada vez mais importante para as editoras de HQ.

Aliás, há séries que só se pagam na versão TPB. É o caso de muitas da finada Vertigo (100 Balas, Vampiro Americano, Escalpo) e várias da Image Comics – geralmente o material mais “adulto”. Fora ser encontrada em mais pontos de venda, a coletânea traz um naco de história mais generoso, quando não uma história completa. Também é mais barato comprar uma coletânea de Saga (US$ 14,99, mas acha-se com desconto) do que seis edições avulsas de Saga (6 x US$ 2,99 = US$ 17,94) . Por que ainda se lançam as edições avulsas? Por causa d’A Dívida, porque você vai ler antes dos outros e porque ainda tem gente com fetiche em colecionar as revistinhas com lombada canoa.

Edições em capa dura, calhamaços como Essential, Absolute, Omnibus e outros trajes de gala surgiram para este novo mercado das livrarias. Mas o mercado direto seguiu funcionando. As comic shops também vendiam todos esses produtos novos. A única exclusividade das comic shops continuou sendo o formato revista, o gibi baratinho a US$ 2,99 ou US$ 3,99 – que ganhou apelidos como pamphlet (panfleto) ou floppy (molenga), diante da concorrência com a lombada quadrada.


Na primeira década deste século, a difusão da internet e o surgimento dos smartphones e tablets deixaram o terreno pronto para a migração do formato revista para o digital. Mas as editoras dos EUA não quiseram, pois, entre outros motivos, acharam que seria sacanagem com as comic shops. Afinal, havia A Dívida e era a parceria com elas que segurava todo o ecossistema do mercado direto há décadas. E elas ainda respeitavam o dogma O Encalhe É do Lojista.

Para evitar a concorrência desleal, primeiro se defendeu que os lançamentos digitais deviam acontecer meses depois do impresso. Depois, que os digitais poderiam ter lançamento concomitante, mas com o mesmo preço dos impressos. É o que acontece hoje. Porém, seis meses depois do lançamento, os digitais caem de preço ou entram nos pacotes “buffet livre” como DC Universe ou Marvel Unlimited. É o jeito que as editoras acharam de não prejudicar as comic shops e lembrar d’A Dívida. Assim, os leitores continuam fiéis às revistinhas. (As gráficas também agradecem.)


O mercado direto tem várias vantagens para editoras, lojas e colecionadores, desde que todos se respeitem e não aconteça nenhum percalço no ecossistema. Mas os percalços chegam. Comic shops não têm como competir com os megadescontos de lojas como a Amazon, então há muitas que nem se dão ao trabalho de oferecer uma capa dura de US$ 50 se na internet encontra-se a US$ 30. As Amazons da vida, por outro lado, não vendem diretamente o formato revista – só através de terceiros, ou digital.

Pior: o mercado direto se fechou tanto nos fãs fiéis que esqueceu de se renovar. O público médio está acima dos 35 anos e gerações mais novas não foram catequizadas a ir à loja toda quarta-feira. Grande parte da população dos EUA nem sabe que as revistas em quadrinhos ainda existem, pois não sabe onde se vende.

E aí acontece um baque maior, como o distanciamento social durante a pandemia de Covid-19. Em 31 de março de 2020, a Diamond Comics anunciou que não tinha como pagar Marvel, DC e todas as outras editoras do mercado direto. E encerrou atividades temporariamente, sem conseguir distribuir gibis para as lojas que, se já não estavam fechadas, começaram a fechar nas semanas seguintes. O 1º de abril foi a primeira quarta-feira em décadas em que todas as comic shops atendidas pela Diamond ficaram sem produto novo.

O americanos gastam em torno de US$ 10 milhões por semana nas comic shops. Como elas passaram semanas sem novidade, o fluxo de caixa foi bastante prejudicado. É esperado que, infelizmente, muitas lojas decretem falência. O perigo para o mercado direto é que, se um percentual pequeno das 2000 lojas em funcionamento nos EUA parar, o sistema todo deixa de ser interessante para a Diamond. Ou para qualquer distribuidora que seja.

Há quem diga que, com 500 lojas a menos, o mercado direto morre. Há quem diga que, com 200 lojas a menos, não há mais motivo para o modelo existir.


Qual é provavelmente o quadrinho mais vendido dos EUA? A série de livros Homem-Cão, HQ para crianças de Dav Pilkey que tem tiragens de 5 milhões e é vendida sobretudo em livrarias. Raina Telgemeier também vende milhões de Sorria, Irmãs e Coragem – mas só nas livrarias. Vez por outra a DC Comics, principalmente, tenta copiar este modelo. A última investida, com o selos DC Ink e DC Zoom, traz graphic novels infantis e infanto-juvenis com Batman, Superman e Mulher-Maravilha que miram as livrarias.

Se o mercado direto cair, a livraria vai ser o caminho para todas as editoras. Aí você pode dar adeus àquela revista mensal do Batman, do Homem-Aranha ou do Spawn a US$ 2,99 ou US$ 3,99. Se os personagens continuarem nas HQs, serão em republicações ou em histórias originais em formatos com mais páginas e mais caros – de US$ 9,99 para cima. E o volume de publicações das editoras, que chega a 60 ou 80 títulos inéditos por mês, vai cair drasticamente. Vai ter muito, mas muito roteirista, desenhista, colorista, letreirista e editor sem trabalho.

Por que isso não aconteceu antes? Por causa de todas as vantagens do mercado direto, como O Encalhe É do Lojista. Trabalhar com livrarias significa outros distribuidores, outras margens de lucro e, geralmente, a editora ter que arcar com o encalhe. Fora o fato de que a livraria não vende só HQ.


E os filmes de herói? E os seriados da Netflix? E os games? E as estatuetas? E as pantufas?

Sim, de 2000 para cá, o sucesso dos super-heróis no cinema ajuda a pagar as contas das grandes editoras de quadrinhos e de alguns autores. O mercado de quadrinhos norte-americano, sem contar todo licenciamento, movimenta US$ 1,1 bilhão por ano. Cada bilheteria bilionária, como de Vingadores: Ultimato ou Coringa, vale mais que todo o mercado de quadrinhos dos EUA. Por que as editoras não exploram seus personagens só nos filmes, seriados etc.?

É que a indústria do cinema, da televisão, dos games e os licenciantes que estampam a Arlequina em calcinha dependem do ecossistema tradicional de editoras, lojas e leitores. Por incrível que pareça, vale a pena sustentar uma indústria de quadrinhos que rende pouco diretamente porque ela produz personagens, imagens e histórias em ritmo alucinado e, sobretudo, barato. Estes personagens, estas imagens e estas histórias podem virar filmes, seriados, games, estatuetas e pantufas que vão movimentar bilhões. Desenvolver tudo isso do zero ou pagar o que se paga para criadores no audiovisual ou no licenciamento sairia muito mais caro.

O mercado direto e seus fãs fiéis é um alicerce relativamente barato para os bilhões de tudo mais baseado em gibi. Desde que as contas fechem na distribuição/comic shops, é claro.


Sem Diamond desde o início de abril, Marvel e DC Comics correram atrás de outras distribuidoras que tivessem condições e quisessem encarar o trabalho de levar gibis às duas mil comic shops dos EUA. A DC usou duas distribuidoras menores para desovar alguns poucos lançamentos durante abril e maio – o que alguns taxaram de traição à Diamond. Mas se, em 25 de março, a última quarta-feira antes da Diamond fechar, a DC havia lançado 48 produtos novos, voltou no fim de abril com apenas seis revistas inéditas.

A Diamond Comics voltou a distribuir nesta semana, no dia 20 de maio. O que já estava programado para lançamento desde abril – lembrando que todas anunciam seus lançamentos três meses antes – vai ser parcelado ao longo do ano. Por enquanto não se falou em projetos cancelados, mas se aguarda uma rodada de cancelamentos. Muitas editoras deram ordem de “pencils down”, ou “guardar lápis”, a seus artistas durante o período da Diamond parada.

Mesmo com o retorno da distribuidora, restam várias dúvidas: quantas comic shops quebraram nos dois meses paralisadas ou sem produto novo? E o que fazer caso aconteça novas quarentenas no comércio e na indústria, que afetarem lojas, distribuidoras e mesmo gráficas?


No Brasil? A consignação ainda é o modelo básico para bancas e livrarias por aqui. O lojista recebe as revistas ou livros, vende os que consegue, paga por estes e devolve o encalhe à editora. Houve tentativas de fazer algo parecido com o mercado direto, principalmente com editoras pequenas, mas o número reduzido de comic shops no país não colabora com o modelo.

Depois dos calotes sucessivos de Dinap (distribuidora de revistas), Livraria Cultura e Livraria Saraiva, o modelo de consignação está sendo questionado. Por outro lado, adotar um modelo em que o encalhe é do lojista levaria donos de bancas e livrarias a serem mais seletivos quanto ao que expõem nos seus pontos de venda, e provavelmente se teria menos diversidade de revistas. Sem falar que o número de bancas no Brasil está em queda: foi de 23 mil em 2000 para 12 mil em 2019. Empresas como Amazon chegaram com política de ficar com o encalhe, mas negociando descontos altos com as editoras e perigando criar um monopólio.

Embora as revistas em quadrinhos aqui sejam mais grossas que as americanas, o preço baixo e o ritmo de publicação não funcionam para outros pontos de venda que não bancas e comic shops. É possível que, no Brasil, este formato também esteja com os dias contados e que o ponto de venda de HQs vire a livraria – com HQs mais caras – ou opções digitais.

Como será o gibi pós-pandemia? Bom, não se sabe como será muita coisa do mundo pós-pandemia. No mercado direto, o que se sabe é que ninguém mais quer uma quebra na distribuição como a que houve nestes últimos meses.

A solução seria quebrar o monopólio da Diamond? Calma lá: a Diamond só tem o monopólio porque ninguém mais quer encarar a bronca de distribuir um produto tão barato para um número de compradores periclitante.

A grande questão está em torno disso: o gibi é um produto barato. A US$ 3,99, o preço usual das revistas com material inédito, a revista em quadrinhos custa menos que um ingresso de cinema, que um livro novo, que um videogame novo. Sim, por poucos dólares a mais você assina serviços de streaming, ou uma infinidade de jogos, ou mesmo um cardápio gigante de gibis digitais. Mas por US$ 3,99 você tem um gibi inédito do Batman na mão, em papel – prazer que muitos valorizam e que, perto de outros prazeres, continua bem barato.

Os otimistas dizem que, no mundo falido pós-pandemia, o público vai precisar de entretenimento barato como os gibis. Como isso vai acontecer, ainda não se sabe. Nem quando.

  1. Referências principais:
  2. Diamond Comics (listas de mais vendidos, listas de lançamentos por semana)
  3. ICV2 e Comichron: principais sites de análise do mercado direto. Vale a pena ler “Hope and comics at 2 a.m.: The historical case for optimism”
  4. – Comic Shop: the retail mavericks who gave us a new geek culture, livro de Dan Gearino sobre a formação do mercado direto
  5. – A coluna Retail Therapy no TCJ.com
  6. – Entrevistas com Heidi McDonald – como neste podcast e neste podcast – e sempre que ela comenta no próprio site, o Comics Beat.
  7. – Colunas do Rob Salkowitz na Forbes, tipo esta.
  8. “Why is Batman the benchmark?”
  9. “Como o novo coronavírus pode mudar o mercado de quadrinhos dos EUA” (escrevi em abril para o Omelete)

(Agradecimentos a Ramon Vitral e a Sergio Codespoti por serem os primeiros leitores e sugerirem vários acréscimos ao texto.)

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CINEMA PURGATORIO ANNOTATO

Cinema Purgatorio Annotato: volume 3, história 3: “As Revelações do Morcego”

O site Cinema Purgatorio Annotato compilou uma série de apontamentos sobre Cinema Purgatorio, a série comandada por Alan Moore e Kevin O’Neill. É um guia para ler os contos da sala de cinema captando todas, ou quase todas, as referências que os autores despejam para contar a macabra história de Hollywood. Traduzi o volume 3 de Cinema Purgatorio (Panini, outubro/2019, 152 páginas, disponível aqui) e, como não podia deixar de ser, me servi muito do Cinema Purgatorio Annotato. Perguntei aos dois [ . . . ] LEIA MAIS

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#traduzi, março/abril 2020

Um listão das minhas traduções que saíram nesses dois últimos meses. Checklist, se você quiser chamar de checklist. Planeta Estranho é a coletânea de tiras do Nathan W. Pyle publicadas no Instagram. O livro saiu no final do ano nos EUA e estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do New York Times (neste exato momento continua por lá, em nono lugar). Não só o planeta é estranho, mas a tradução é estranha, pois os personagens falam errado e [ . . . ] LEIA MAIS

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Exposição Quadrinhos no MIS

(Estou recuperando textos que publiquei fora daqui. Este eu soltei no Facebook em 14/11/2018.) Ontem eu devia estar no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. Não fui por motivos de uma barriga com um bebê que quer sair da barriga. Não a minha barriga, mas vocês entenderam. Pelo mesmo motivo, acho que só poderei ir ao MIS no ano que vem. O que está rolando no MIS é a maior exposição sobre Quadrinhos – em abrangência, em [ . . . ] LEIA MAIS

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Spiegelman e o Caveira Laranja

(Estou recuperando textos que publiquei fora daqui. Este eu soltei no Facebook em 21/8/2019.) Traduzi o comentado texto do Art Spiegelman sobre a Marvel e o Caveira Laranja a convite da Quatro Cinco Um. Está aqui. Achei curioso o quanto esse texto repercutiu, ainda em inglês. Além dos típicos comentários rápidos de Facebook e Twitter, vi várias matérias por aí, na mídia especializada e na não-especializada brasileira. E aqueles inevitáveis comentários dos “ui ui ui não mistura política com meus [ . . . ] LEIA MAIS

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